Dri Torres consultoria canina

Como escolher um cão de companhia para famílias atípicas

Mais que suporte emocional, um cão de companhia pode ser um parceiro para todas as horas.

imagem de um poodle branco medio com um menino negro em um gramado ensolarado

Quando pensamos em trazer um novo cão para casa, é comum tomarmos essa decisão por impulso ou por romantização.

O impulso nos leva a escolher o filhote que nasceu na casa de um amigo, o cão resgatado que apareceu nas redes sociais ou aquele que simplesmente surgiu na porta da nossa casa pedindo carinho. Eu sei como é. Já fiz as três coisas.

A romantização acontece quando escolhemos um cão pelos motivos errados. Quem mora em apartamento acredita que um cão pequeno será automaticamente mais feliz.

Quem não gosta de pelos pela casa imagina que um cão de pelo curto dará menos trabalho.

E há quem escolha uma raça porque ela é o sonho de uma vida inteira. Eu também já fiz isso.

Nada disso faz de alguém um mau tutor. Pelo contrário: faz parte da forma como nós, seres humanos, costumamos tomar decisões importantes.

O problema é que, quando falamos de uma convivência que pode durar quinze anos ou mais, a emoção, sozinha, nem sempre é a melhor conselheira.

Especialmente em famílias com pessoas com deficiência, essa decisão merece ainda mais planejamento. Muitas dessas famílias já vivem uma rotina intensa de cuidados, frequentemente concentrada sobre uma única pessoa (a mãe). 

Um cão pode trazer companhia, alegria e qualidade de vida, mas também exige tempo, recursos financeiros e dedicação diária.

Antes de perguntar “qual é a melhor raça?”, talvez a pergunta mais importante seja:

“Qual cão tem mais chances de ser feliz vivendo com a minha família?”

Porque não existe o melhor cão e sim o mais compatível com cada realidade.

É claro que a raça pode fornecer algumas pistas importantes sobre tendências comportamentais. Nível de energia, predisposição para determinadas atividades, facilidade de cooperação com seres humanos e algumas características emocionais possuem influência genética.

Mas cães continuam sendo indivíduos, assim como nós. 

Eu mesma aprendi isso da forma mais difícil.

Escolhi minha dogue alemã pela foto. Ela chegou em casa com apenas 70 dias de vida e, desde o início, apresentou comportamentos relacionados ao medo, bastante diferentes do que normalmente esperamos da raça. 

Amo profundamente minha cachorra e jamais faria uma escolha diferente hoje por causa dela. Mas reconheço que, se eu tivesse escolhido o indivíduo pelo temperamento, e não apenas pela aparência, provavelmente nossa caminhada teria sido mais fácil.

Foi justamente por situações como essa que surgiram métodos científicos de avaliação de temperamento.

Um dos mais conhecidos é o APET (Avidog Puppy Evaluation Test), desenvolvido pelo programa Avidog. O teste ajuda criadores e futuros tutores a observarem características importantes do filhote antes da escolha, buscando maior compatibilidade entre o cão, sua futura função e o ambiente onde irá viver.

Algumas características possuem forte influência genética, como o nível de energia, a estabilidade emocional, a disposição para cooperar com pessoas e determinados aspectos da sociabilidade.

Outras, dependem muito mais do ambiente e das experiências vividas, como a forma de responder a estímulos, a facilidade para manter o foco ou a maneira como lida com situações novas.

É justamente essa combinação entre genética e ambiente que faz com que dois cães da mesma raça possam ser completamente diferentes entre si. Por isso, escolher apenas pela raça pode levar a frustrações.

Da mesma forma, acreditar que cães pequenos sempre se adaptam melhor a apartamentos ou que cães grandes precisam, obrigatoriamente, de grandes quintais também são simplificações que nem sempre correspondem à realidade.

Um terrier de pequeno porte pode necessitar de muito mais atividade física e mental do que um dogue alemão adulto que recebe passeios, enriquecimento ambiental e oportunidades adequadas para expressar seus comportamentos naturais.

Compatibilidade temperamental sempre será mais importante do que tamanho, não tenha dúvidas disso! 

Nos próximos artigos desta série, vou explicar como funciona o APET, quais características realmente valem a pena observar em um filhote e como costumo avaliar cães adultos antes de recomendar uma adoção.

Se você pretende incluir um cão na sua família, espero que esses textos ajudem a tornar essa decisão mais consciente.

Afinal, não existe cão melhor ou pior, existe o cão mais compatível com a realidade de cada família!

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