Dri Torres consultoria canina

As 10 perguntas mais recorrentes sobre cães de assistência à pessoa autista

Foto minha, mulher branca, de cabelos grisalhos na altura dos ombros, usando uma blusa azul de malha e ajoelhada ao lado da Morgana, minha dogue alemã branca com manchas cinzas e pretas na cabeça. Ela está do meu lado esquerdo e olha pra mim. Atrás de mim tem plantas e um sófá.

Conheça as respostas para as principais dúvidas sobre cães de assistência à pessoa autista: seleção, treinamento, tarefas, benefícios, legislação e muito mais.

A modalidade de cão de assistência à pessoa autista teve início na década de 1990, quando a organização canadense National Service Dogs (NSD) começou a treinar cães especificamente para apoiar crianças autistas, sobretudo em questões de segurança em ambientes públicos e regulação sensorial.

Nos anos 2000, o modelo se expandiu para outros países, com pesquisas demonstrando benefícios como redução de comportamentos de fuga, melhora do sono, diminuição da ansiedade e maior participação social.

Reuni aqui as 10 perguntas mais frequentes que recebo. Quem sabe alguma delas responde a sua também?

1. O que é o autismo?

Dentro do paradigma da neurodiversidade, o autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, de base genética, que faz parte da diversidade humana.

Ele envolve formas particulares de processamento sensorial, comunicação e interação, além de interesses intensos e da necessidade de regulação por meio de movimentos repetitivos, conhecidos como stims.

2. Quais os principais desafios de pessoas autistas no mundo atual?

Alguns desafios enfrentados por muitas pessoas autistas incluem:

  • Excesso de estímulos sensoriais no ambiente urbano;
  •  Ênfase na comunicação oral como padrão;
  • Normas sociais baseadas em expectativas neurotípicas;
  • Preconceito estrutural que impacta direitos como moradia, educação e trabalho.

 

3. O autismo é uma deficiência?

Sim, de acordo com o modelo social de deficiência.

Nesse modelo, a deficiência é o resultado da interação entre as características da pessoa e as barreiras impostas pela sociedade, sejam elas físicas, comunicacionais ou atitudinais.

4. O que são cães de assistência para autistas?

São cães cuidadosamente selecionados, socializados, treinados e avaliados para executar tarefas específicas que ajudam a reduzir barreiras enfrentadas por pessoas autistas em seu cotidiano.

5. Como são selecionados, socializados e treinados esses cães?

A seleção começa ainda na fase de filhote, considerando as necessidades individuais da pessoa assistida. Protocolos como o APET (Avidog Puppy Evaluation Test) auxiliam na identificação de características de temperamento compatíveis com a função.

A socialização tem início nas primeiras semanas de vida, período especialmente importante para o desenvolvimento comportamental, e continua ao longo de toda a vida do cão.

O treinamento costuma ser dividido em duas etapas:

  • Etapa 1: Socialização e habilidades de base (entre 2 e 14 meses)

Nesta fase, o foco está na socialização, na comunicação, no desenvolvimento emocional e na construção das habilidades de base necessárias para a vida em sociedade.

  • Etapa 2: Tarefas específicas (entre 15 e 24 meses)

Nesta etapa são ensinadas as tarefas relacionadas às necessidades da pessoa assistida.

É importante destacar que algumas raças ou indivíduos apresentam amadurecimento mais lento. Nesses casos, a transição entre as etapas deve ocorrer apenas quando o cão demonstrar estar apto para avançar.

6. Quais tarefas esses cães podem realizar?

As tarefas variam conforme as necessidades individuais da pessoa assistida. Entre as mais comuns estão:

  • Lembretes de medicação;
  • Aviso da chegada de pessoas;
  • Apoio em pesadelos ou terrores noturnos;
  • “Saída elegante” de situações sociais desconfortáveis;
  • Bloqueio e criação de espaço em ambientes cheios;
  • Alerta a responsáveis quando a pessoa precisa de ajuda;
  • Redirecionamento seguro para casa em situações de crise;
  • Redirecionamento de comportamentos autolesivos;
  • Pressão tátil profunda (DPT);
  • Facilitação da comunicação com outras pessoas;
  • Ancoragem e gestão de segurança para impedir fugas de crianças.

 

É importante destacar que não se recomenda interromper stims, como hand flapping ou balançar do corpo, pois esses comportamentos podem exercer funções importantes de comunicação e autorregulação.

No caso da ancoragem, ela deve ser utilizada com muito cuidado para não se transformar em uma experiência aversiva para a criança. O objetivo é promover segurança, e não restringir sua autonomia.

7. Quais os principais benefícios?

Além das tarefas que podem realizar, esses cães também podem:

  • Atuar como pontes sociais;
  • Incentivar o desenvolvimento da linguagem;
  • Promover senso de responsabilidade;
  • Oferecer suporte emocional.

 

Esses são benefícios indiretos da convivência com o cão e não são considerados tarefas específicas de um cão de assistência.

8. Qual a diferença entre cão de assistência, cão de terapia e cão de suporte emocional?

Cão de assistência: cão selecionado, socializado e treinado para atender uma única pessoa ao longo da vida.

Cão de terapia: cão selecionado, socializado e treinado para atuar com profissionais em Tratamento Assistido por Animais (TAA), uma das modalidades de Serviços Assistidos por Animais, podendo apoiar atendimentos individuais ou em grupo.

Cão de suporte emocional: animal que oferece conforto emocional ao tutor, mas que não possui treinamento especializado para executar tarefas relacionadas à deficiência e não possui direito de acesso público garantido.

9. Posso treinar meu próprio cão?

Se o cão não foi selecionado e socializado desde filhote, dificilmente apresentará o perfil ideal para a função.

A Atlas Assistance Dogs oferece mentoria para o treinamento de cães com pelo menos 14 meses de idade, desde que cumpram critérios específicos e residam na região de atuação da organização.

Sou treinadora certificada pela Atlas Assistance Dogs, mas atuo de forma independente. Por escolha profissional, prefiro não oferecer esse serviço para cães que não foram previamente selecionados por mim.

Vale lembrar que mesmo cães cuidadosamente selecionados e socializados podem não concluir sua formação como cães de assistência.

10. Um cão pode ter dupla função, como assistência à pessoa autista e alerta médico?

De acordo com os padrões da Assistance Dogs International (ADI), os cães são treinados e certificados dentro de uma única modalidade de assistência. Não se recomenda a certificação de uma mesma dupla em múltiplas modalidades, pois cada categoria possui critérios próprios de seleção, treinamento e avaliação.

Isso não significa que um cão não possa executar tarefas compatíveis com sua modalidade principal. Por exemplo, um cão de assistência à pessoa autista pode buscar medicações ou oferecer suporte durante uma crise convulsiva. No entanto, isso não o caracteriza como um cão de alerta médico.

As modalidades possuem objetivos, requisitos e processos de formação distintos.

Qual a sua dúvida?

Conta pra mim nos comentários: qual sua principal dúvida sobre cães de assistência para autistas? Em breve falarei sobre as outras modalidades reconhecidas pela ADI! 

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