Stims e cães: dá para conviver?
Respeitar as necessidades da pessoa autista e os limites do cão não são objetivos incompatíveis.
Entendendo os Stims
Uma das características ainda pouco compreendidas do autismo é a necessidade, SIM, NECESSIDADE!, que muitas pessoas autistas têm de realizar movimentos ou comportamentos autorregulatórios. A medicina tradicionalmente os chamou de “estereotipias”. Nós, autistas, costumamos chamá-los carinhosamente de stims ou stimming.
Os comportamentos repetitivos são tão característicos do autismo que fazem parte dos critérios diagnósticos. Talvez você não conheça o nome, mas provavelmente já viu uma pessoa autista pular, girar, balançar o corpo, movimentar as mãos para cima e para baixo, no conhecido flapping, ou fazer stims vocais.
Esses comportamentos podem se prolongar por bastante tempo. Ivar Lovaas, aquela praga DUS INFERNO um dos nomes mais conhecidos da história da intervenção comportamental no autismo, descreveu crianças autistas realizando esses movimentos repetitivos durante horas. O problema é que ele os enxergava como comportamentos aberrantes que deveriam ser eliminados. Hoje, principalmente quando ouvimos as próprias pessoas autistas, sabemos que a história é bem mais complexa.
Muitas mulheres autistas, por exemplo, parecem não fazer stims tão evidentes. Mas eles podem simplesmente ser mais discretos ou socialmente aceitos: cutucar a cutícula com outro dedo, enrolar uma mecha do cabelo, mexer repetidamente em algum objeto. Isso pode contribuir, inclusive, para que características do autismo passem despercebidas em meninas e mulheres.
Os stims podem nos ajudar na regulação sensorial e emocional, na concentração e também na expressão de alegria, excitação e outras emoções. Por isso, se um stim não causa dano à própria pessoa nem a outras, não existe motivo para redirecioná-lo apenas porque outras pessoas o consideram estranho. E suprimir não é opção.
Aqui faço uma distinção importante: não estou chamando de stim o comportamento autolesivo. Quando uma pessoa se bate, bate a cabeça contra a parede, puxa os próprios cabelos ou se coça até provocar ferimentos, não estamos diante de algo que não deve ser visto como um comportamento autorregulatório necessário. Há uma pessoa se machucando, e precisamos investigar o que está acontecendo.
Dor física, sofrimento emocional, sobrecarga sensorial, dificuldade de comunicação e outras condições podem estar relacionadas a comportamentos autolesivos. Mas, novamente, suprimir não é a opção mais adequada. É preciso redirecionar o comportamento e, ao mesmo tempo, investigar sua função e, principalmente, procurar a causa do sofrimento daquela pessoa.
Suprimir comportamentos pode trazer efeitos colaterais imprevisíveis. Por isso sempre recomendo aos pais: respeitem os stims dos autistas.
“Ah, mas as pessoas acham estranho!”
Problema das pessoas, não dos stims.
Mas e quando temos cães e autistas debaixo do mesmo teto?
Alguns stims podem ser muito aversivos para determinados cães, principalmente quando temos um animal mais sensível a sons, movimentos rápidos ou contato físico. E isso pode afetar tanto o bem-estar do cão quanto a segurança e o bem-estar da pessoa autista.
Então, o que fazer?
Podemos começar pela prevenção. Um cão adequadamente selecionado desde filhote pode apresentar características mais compatíveis com aquela família e, durante seu desenvolvimento, ser habituado gradualmente e de maneira positiva aos movimentos, sons e à rotina das pessoas com quem vai conviver.
Isso não significa procurar um cão que “aguente tudo”. Cães também têm limites.
À medida que a criança autista cresce e desenvolve condições para compreender essas relações, também podemos ensinar que suas necessidades são legítimas, mas as necessidades dos outros seres com quem ela convive também são. Como dizia minha mãe: nossa liberdade termina onde começa a do próximo.
E isso vale para todos.
Se uma pessoa autista está fazendo muito flapping durante um momento de excitação com o videogame e aquele movimento incomoda o cão, por exemplo, o cão precisa ter uma rota de fuga e liberdade para utilizá-la.
Se ele se afasta, a pessoa autista deve entender que não deve segui-lo.
Da mesma forma, quando o cão está em um espaço no qual não consegue se afastar, podemos negociar com a pessoa autista, dentro das possibilidades dela, outra maneira, intensidade ou local para atender àquela necessidade sensorial.
Não se trata de ensinar o autista a esconder quem é para não incomodar o cão. Também não se trata de obrigar o cão a tolerar tudo porque vive com uma pessoa autista.
Não precisamos escolher entre o bem-estar do autista e o bem-estar do cão. Precisamos organizar o ambiente para proteger os dois.
Aqui em casa temos um bom exemplo disso.
Meu filho tem hiporresponsividade tátil e auditiva e busca esses estímulos o tempo todo, inclusive produzindo-os por conta própria.
Utilizamos stim toys, brinquedos próprios para atender a determinadas necessidades sensoriais, e outras estratégias, como balanço e pijama de nylon para a busca de estímulos táteis, além de brinquedos que produzem sons menos incômodos para atender à busca auditiva.
Ao mesmo tempo, estamos sempre negociando.
Eu tenho hiperresponsividade auditiva. Muitas vezes, principalmente quando estou trabalhando, preciso que ele se afaste ou encontre outra maneira de produzir determinado estímulo quando quer permanecer perto de mim.
Ele tem necessidades. Eu também.
É um pacto de quem pretende conviver, não é mesmo?
E com os cães não é diferente
Meus cães são enormes e têm baixa sensibilidade a muitos estímulos auditivos e táteis. Foram habituados desde filhotes a uma casa com diferentes sons e movimentos e conhecem muito bem meu filho.
Ainda assim, eles têm direito de dizer não.
Quando não estão confortáveis com uma interação, podem simplesmente se afastar. Meu filho aprendeu que, quando isso acontece, não deve ir atrás.
O afastamento é comunicação.
Dar espaço é respeitar. E respeitar os limites do cão permite que meu filho continue sendo respeitado e amado como é também.
Sim, stims e cães podem conviver.
Assim como pessoas com algum sentido hiperresponsivo podem conviver com pessoas com sentidos hiporresponsivos. Não precisamos ter as mesmas necessidades para viver juntos. Precisamos aprender a reconhecer e respeitar as necessidades uns dos outros.
E é justamente por isso que não existe uma receita pronta para famílias que enfrentam dificuldades nessa convivência.
Cada autista é diferente. Cada cão também.
É preciso compreender as necessidades sensoriais daquela pessoa, as características comportamentais e sensibilidades daquele cão, a rotina da família e o ambiente em que todos vivem.
Esse é também um dos trabalhos que realizo na consultoria comportamental canina online: compreender o que está acontecendo naquela família e construir, junto com ela, estratégias de manejo e treinamento que respeitem as necessidades humanas e o bem-estar do cão.
Se você tem um filho ou uma filha autista, conte para mim nos comentários: quais stims ele ou ela costuma fazer? E, se vocês também têm um cão, como ele reage a esses comportamentos?